Só sei que nada sei, mas ainda insisto em digitar...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Só sei que é rir pra não chorar. - O Comediante x A Sociedade.

"...não devemos enxergar comédia onde não há, por nossa mera conveniência egoística e covarde. E muito menos devemos agir jocosamente em situações onde não se aplica o humor."

Capítulo que nos apresenta a ilustração
do broche do Comediante com o
sangue do mesmo.


"O Comediante" é o alter-ego de Edward Blake, o personagem de "Watchmen" que é o tema do post de hoje. O famoso broche com sangue do "smile" que acabou se tornando um símbolo da saga, pertencia à ele.

O Comediante e seu
inseparável charuto.


Ele é um vigilante mascarado, transformado em um paramilitar (ou mercenário), e pai de Laurie, a "Espectral". Bom, na verdade ERA. Pois a trama de "Watchmen" tem início com o assassinato de Edward Blake em seu apartamento. Com o desenvolvimento da trama, através de "flashbacks" dos personagens, vamos conhecendo aos poucos quem realmente era o Comediante. Bom, ele era um grandisíssimo filho da puta.

Edward Blake sendo assassinado em seu apartamento.


Niilista por excelência, não respeita a ética, muito menos a moral. Ou seja, cagava e andava para a vida humana. Pelo que conhecemos de seus atos sádicos e de sua história violenta, podemos muito bem concluir que Edward Blake era apenas um psicopata travestido de super-herói.

Grandisíssimo filho da puta.


"Vidas violentas terminando de maneiras violentas".

Funeral de Edward Blake.


Uma das definições dadas para o Comediante é de que ele era um homem que reconhecia o horror presente nas relações humanas, e por isso se refugiava no humor. De que sua ironia violenta era, em vários momentos, um reflexo amargo da percepção desse horror. Ele ria para não chorar. Quer dizer, o Comediante ia além. Ele matava e estuprava para não chorar. Se "a sociedade" insistia em causar todo esse horror humano, a última risada seria dele, do Comediante. A piada final era sempre dele. Se a sociedade fazia, ele então fazia pior. E ria. Se você agisse como um merda, ele iria fazer você pagar por isso. Se você fosse violento, ele seria mais, independente do motivo. Se você agisse e se vestisse como uma puta, ele iria te estuprar, pois ninguém mandou você se insinuar pra ele. Se você rasgasse a cara dele, ele meteria uma bala no meio da sua, mesmo que você tivesse grávida. Como eu disse, a piada final era sempre dele. Quem ria por último, era sempre ele. Até ter sido violentamente assassinado.

"Rorschach" deixa flores no túmulo
de Edward Blake.


Edward Blake havia se tornado um vigilante mascarado desde a época dos "Minutemen", em 1939, agindo especificamente nas docas de Nova Iorque. Hollis Mason, o antigo "Coruja", narra em seu livro "Por baixo do Capuz" que Edward Blake teria agredido e tentado estuprar Sally Jupiter, a primeira "Espectral", e uma das reuniões dos "Minutemen". E que só não teria obtido êxito no estupro pois foi surpreendido e agredido por "Justiça Encapuzada", outro mascarado da época. Esse ato deplorável fez com que ele fosse expulso dos "Minutemen".

"Justiça Encapuzada" salva Sally segundos antes de ser
estuprada pelo Comediante.


Edward então se alistou, e acabou lutando na Guerra do Pacífico, onde acabou se tornando um  herói de guerra. Em 1966, na 1ª Reunião dos Combatentes do Crime, de alguma forma foi " sondado e captado", e começou a trabalhar para o Governo, lutando inclusive na Guerra do Vietnã, ajudando a conduzir os americanos à vitória juntamente com o "Dr. Manhattan".


Comediante tocando o horror como mercenário
na Guerra do Vietnã.


Inclusive no Vietnã temos um "flashback" no qual o próprio assassina uma moça vietnamita grávida dele próprio. Ele assassina ela, pois ela havia rasgado seu rosto com uma garrafa quebrada. É aí que ele ganha sua cicatriz no rosto, em 1971.

Eddie Blake assassina uma grávida em um bar de Saigon.


Na trama, dá-se a entender que o próprio teria, inclusive, assassinado o Presidente Kennedy.

"Apenas não pergunte onde eu estava quando ouvi
sobre JFK. HA HA HA HA HA!"


Em outro "flashback", vemos o Comediante tentando impedir um protesto da população, durante a greve da polícia, pouco antes da aprovação da "Lei Keene". Na greve, o próprio agride vários populares, homens e mulheres, atirando com sua escopeta e seu lança-granadas. Bom, pelo menos ele terminou com o protesto. Eis que ele diz para o "Coruja": - "Somos a única proteção da sociedade agora." O Coruja então pergunta à ele: - "E estamos protegendo eles de quem?". Comediante então conclui: "Protegendo eles deles mesmos." De alguma forma, o Comediante esperava que a sociedade lhe devia NO MÍNIMO gratidão, admiração e respeito, por todos "serviços prestados" à sociedade. Serviços esses, que mascaravam literalmente seu sadismo e sua crueldade interior.

O Comediante indo proteger a sociedade "dela mesma".


Mas no "flashback" que pra mim é o que melhor ilustra a vida desse infeliz, vemos o Comediante invadir, sem sua máscara, a casa de um antigo vilão e inimigo pessoal, que à época chamava-se "Moloch". Ele então, sem máscara e entre lágrimas e catarro, desabafa com ele, dizendo que ele, que durante toda sua vida foi seu inimigo, era a coisa mais próxima de um amigo que ele tinha na vida. E o Comediante sai do quarto dele, ainda chorando, pedindo perdão à sua mãe. Aquele havia sido seu desabafo mais sincero. E como não tinha amigos, foi obrigado a desabafar com um antigo inimigo. Triste. Aquele sim, era o verdadeiro Edward Blake. Uma pessoa amargurada, e agora arrependida de todas as atrocidades que até então havia cometido em sua vida.

"Moloch" conta à "Rorschach" que
Eddie Blake esteve no seu quarto.


"Rorschach", durante sua narrativa em dado momento da trama, faz essa citação, que ilustra muito bem o Comediante:

"Um homem vai ao médico e fala que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Ele se sente só, num mundo ameaçador onde o futuro é vago e incerto. O doutor diz..."O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá vê-lo. Levantará seu astral. O homem começa a chorar e fala: "Mas doutor...eu sou o palhaço Pagliacci".

O Comediante, indo chorar na casa de Moloch, foi exatamente o palhaço Pagliacci. E isso nos faz ver, que até os comediantes choram. Nesse caso, apenas um psicopata e pseudo-comediante.

O Comediante pagando de gatinho no Vietnã.


Afinal, uma vida não é só feita de sorrisos e gargalhadas. A vida também é feita de lágrimas. E menos sentindo ainda faz querer sorrir ou gargalhar mediante situações que são dignas de choro ou piedade. O Comediante realmente compreendia o horror tão presente em algumas relações humanas. Mas simplesmente não se importava. Na verdade propagava o tal horror. E através de seu pseudo-humor ele se refugiava desse horror todo. E como era esse "pseudo-humor"? Era literalmente rir para não chorar. Mas no fundo, se algo te faz querer chorar, qual o problema em ser verdadeiro com você mesmo e simplesmente chorar? Para que mascarar um sorriso em meio à engasgos de choro?

Capítulo que narra o funeral de
Eddie Blake.


O Comediante simplesmente ajudava a espalhar todo esse horror infelizmente ainda tão humano. E vou explicar à vocês por que digo "horror humano". O horror é necessariamente uma criação humana. Pois se um animal mata o outro para comer sua carcaça, ou para demarcar território, isso não há de ser taxado como "horroroso", pois é simplesmente a Natureza manifestando suas Leis perfeitas através de animais irracionais. A partir do momento em que um ser é racional, e mesmo assim ainda age de forma instintiva, negativa e violenta, indo em total desacordo com sua racionalidade, isso sim é algo horroroso ou horrível.

Malandrito´s.


Logo, não devemos enxergar comédia onde não há, por nossa mera conveniência egoística e covarde. E muito menos devemos agir jocosamente em situações onde não se aplica o humor. E o "horror humano" com certeza é uma das situações onde o humor inexiste. Que não fiquemos estáticos quanto à isso, claro. Que ajamos intelectualmente contra isso, de acordo com a lei moral. Milênios e milênios já nos provaram que o aço da espada e projétil deflagrado através da ação da pólvora pode conquistar corpos e territórios, mas não  consquista e muito menos modifica espíritos.

Comediante versão tiozão. Afinal:
Quem vigiava o Comediante?


Se queremos mudar, de vez, o horror ainda infelizmente presente nas relações humanas, devemos, primeiramente e basicamente, PARAR de agirmos com horror também. Pois uma ação horrorosa necessariamente terá uma reação horrorosa, e assim, num ciclo sem fim.

Cova aberta de Eddie Blake.
Enterro na chuva.


Cabe à nós dar o primeiro passo. Infelizmente, o passos que o Comediante deu durante toda sua trajetória aqui no planeta, foi em direção à cova na qual ele foi enterrado. Aprendamos com o "anti-exemplo" de Edward Blake, e que caminhemos para a nossa cova com muito menos remorsos, sangue, pólvora e catarro do que ele.

Pois vidas violentas, cedo ou tarde, terminam de maneiras violentas. E se não for nessa vida, vai ser na outra.

Sequência da morte de Edward Blake
em seu apartamento.


Rufem os tambores. Fechem as cortinas. Aplausos. Boa noite.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Só sei que tenho deveres. - Ozymandias x A Ética do Dever em Immanuel Kant.

"Muitos fãs se questionam até hoje se o objetivo de Veidt era válido. Sim, o objetivo era válido. NADA válido foi seu "modus operandi" simplesmente monstruoso. Literalmente."

Continuando a série de posts sobre "Watchmen", temos como o eleito de hoje o personagem "Ozymandias".

Ozymandias e Bubastis, seu lince
geneticamente modificado.


"Ozymandias" na verdade é o alter-ego de Adrian Veidt.  O codinome escolhido para seu alter-ego, "Ozymandias", tem origem em um soneto de Percy Bysshe Shelley, que descreve a estátua do Rei Ozymandias esquecida no deserto. Soneto esse, que foi inspirado em uma das estátuas danificadas de Ramsés II. Eis o próprio, na íntegra:

Estátua de Ramsés II, que inspirou o
soneto de Percy.


"Eu encontrei um viajante de uma antiga terra, que disse:
—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte
E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal aparecem estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas espalham-se para longe."


Adrian de bobeira na janela, cansado de
brincar de bonequinho.


Adrian é um bilionário excêntrico movido por um obscuro senso de dever, dono das "Indústrias Veidt". É um ególatra e visionário brilhante, dotado de uma inteligência extraordinária, sendo inclusive considerado pela mídia o "homem mais inteligente do mundo". Sua inteligência e auto-controle o tornaram um lutador e atleta exímio, sendo um excelente acrobata, além de conseguir proezas como desviar das balas de um revólver, pois calcula a trajetória das mesmas na hora do disparo.

Rorschach de tiração com Adrian.


Adrian antecipou a onda anti-heróis no fim da década de 70, quando revelou sua identidade secreta para a mídia, tornando-se uma celebridade adorada por todos. É considerado um pacifista, executando sempre obras de caridade, além de ser muito carismático.

Durante a trama, notamos que Adrian tem o já mencionado obscuro senso de dever. Uma vontade imensa de mudar o mundo (para não dizer conquistar, afinal o cara é fã de Alexandre da Macedônia, e parece ter dentro de si o senso expansionista de todo o Império Romano).

Adrian no enterro de Edward Blake,
o "Comediante."


Como Adrian "resolve" mudar o mundo? Bom, ele desenvolve um "plano mestre", nas palavras dele:

"Você realmente acha que eu explicaria meu plano mestre se houvesse a menor possibilidade de você afetar o desfecho? Eu o realizei há 35 minutos atrás." Quer saber qual era esse plano?

Quadrinho da frase acima.


Nos quadrinhos, Veidt recruta secretamente os melhores filósofos, poetas, paranormais, artistas, biólogos e cientistas para criarem um monstro colossal, através da engenharia genética. Mais especificamente, o monstro é um cefalópode gigantesco, e ficou conhecido entre os fãs como "a lula".

A "Lula", já morta no centro de Nova Iorque.


Após ser criado, o monstro então é secretamente teletransportado ao coração de Nova Iorque. O "stress" do teleporte gera uma poderosa onda de choque psíquico na criatura e em tudo à sua volta, e metade da cidade é simplesmente dizimada. A criatura também acaba não sobrevivendo ao teletransporte. O mundo então conclui que a origem dessa criatura só pode ser alienígena, no máximo extradimensional. Logo, os povos antagonistas da Terra (no caso específico, Estados Unidos e Rússia) unem-se contra um novo inimigo em comum (uma pseudo-ameaça alienígena), tendo em vista o "massacre" recente causado pelo monstro alienígena em Nova Iorque. Assim, sacrificando milhões de pessoas, Veidt acaba salvando bilhões alcançando a paz mundial.


Estrago que a Lula fez após ser teletransportada.


No filme, o diretor fez um final um pouco diferente, muito embora mantendo a mesma idéia. Nas telonas, uma bomba de energia explode no centro de Nova Iorque, matando bilhões. O mundo conclui que a bomba teria sido supostamente deflagrada por um vingativo Dr. Manhattan, que até então refugiava-se em Marte após o seu desentendimento com repórteres em um programa televisivo. Na verdade, o Dr. Manhattan, durante todo o filme, estava sendo manipulado por Ozymandias, acreditando que estava desenvolvendo uma nova fonte de energia limpa e renovável, trabalhando juntamente com as "Indústrias Veidt." Tendo em vista o "massacre" recente causado pela bomba de energia do Dr. Manhattan em Nova Iorque, os povos antagonistas da Terra acabam também por ser unir contra esse novo inimigo em comum (o Dr. Manhattan). Assim, sacrificando milhões de pessoas, Veidt acaba salvando bilhões alcançando a paz mundial.

Bomba "deflagrada" pelo
Dr. Manhattan.


Colocados os pingos nos "is", a questão que gira em torno do final de "Watchmen" é: Um monstro cefalópode gigantesco alienígena ou extradimensional, que morrera ao chegar em nosso planeta, resultaria de fato na união dos países e na paz mundial?

Efeitos do "plano mestre" de Ozymandias.



Coruja e Rorschach, que foram os primeiros ao descobrir o seu plano, escutam de Veidt o seguinte: "Hitler disse que as pessoas aceitam mentiras se elas forem grandes o bastante. "E é muito interessante o fato de Ozymandias citar Adolf Hitler, pois ele agiu como o próprio Hitler: foi apenas mais um genocida covarde, nojento e podre.

Rorschach e Coruja tomando
um pau de louco de Ozymandias.


Muitos fãs se questionam até hoje se o objetivo de Veidt era válido. Sim, o objetivo dele foi válido. NADA válido foi seu "modus operandi" simplesmente monstruoso. Literalmente.

Como eu já disse à vocês acima, Adrian é uma pessoa movida por um obscuro senso de dever. E para entendermos melhor o "senso de dever", vou resgatar certos conceitos com o grande filósofo prussiano da Era Moderna, chamado Immanuel Kant.

Immanuel Kant. Vai cantar o quê?


Kant nos ensina que a BOA VONTADE é a condição de toda e qualquer MORALIDADE. A boa vontade é racional, e é boa porque é racional. Tudo depende da intenção com que qualquer ação foi realizada.

A vontade, ou a boa vontade, é boa quando age por dever. O conceito de DEVER contém dentro de si a própria BOA VONTADE. E o dever será uma necessidade de agir por respeito à uma LEI MORAL, que a própria RAZÃO reconhece como MORAL. Ou seja, o dever NUNCA É EGOÍSTA, é muito mais que isso.  É mais ou menos a consciência de que cada indivíduo deve cumprir seu DEVER na sociedade. Ou seja, o VALOR MORAL reside na INTENÇÃO da ação.

Ozymandias de boa na lagoa. Feng Shui.


O SENTIMENTO DE DEVER, portanto, é o respeito pela LEI MORAL, que deve ser a força motriz das nossas ações. Ou seja, agir por DEVER exige o conhecimento à respeito da tal LEI MORAL. E o que é, afinal, a LEI MORAL? Ora, a LEI MORAL nada mais é que algo que possa ser UNIVERSALIZADO. Se algo puder ser válido para TODOS, automaticamente tal "algo" converte-se em LEI MORAL. Ou seja, uma máxima só pode fazer parte da LEI MORAL se tiver um sentimento de UNIVERSALIDADE.

Para Kant, diferente de Maquiavel, os fins não justificam os meios. A ação necessária deve ser BOA POR SI MESMA, INDEPENDENTE DOS FINS QUE SE POSSAM ALCANÇAR COM TAL AÇÃO.

Nicolau Maquiavel. Cara de fuinha.


Afinal, cada indíviduo é RACIONAL por si só. É livre para agir como quiser, de acordo ou não com a LEI MORAL, que reside na própria RAZÃO. Ou seja, no REINO MORAL existe LIBERDADE de escolhas.

O ser humano NÃO É LIVRE quando faz aquilo que O APETECE, ele apenas é livre QUANDO SE SUBMETE À LEI MORAL, OU SEJA, A LEI DE SUA PRÓPRIA RAZÃO. SÓ SOMOS LIVRES ENTÃO QUANDO CUMPRIMOS O NOSSO DEVER, QUANDO NOS SUBMETEMOS À LEI MORAL QUE RESIDE DENTRO DE NÓS MESMOS.

Para Kant, a pessoa humana possui um VALOR ÚNICO, possui DIGNIDADE. Logo, não deve ser tratada como COISA, pois isso TIRARIA SUA DIGNIDADE COMO PESSOA. Ou seja, devemos agir sempre com HUMANIDADE, tanto na nossa pessoa como na de qualquer outro.

"Everything´s all right." é o caralho!


Pois então, amigos leitores. Não precisa ser um filósofo iniciado para entender a DESUMANIDADE com a qual Ozymandias tratou CADA UMA DAS PESSOAS QUE ELE PRÓPRIO ASSASSINOU. Temos que compreender que o motivo, SEJA ELE A PAZ MUNDIAL, pouco importa quando falamos em HOMICÍDIO.

Nenhum ser humano deve cometer o homicídio, senão em sua LEGÍTIMA DEFESA. Tanto a lei dos homens, quanto a lei de Deus nos ensina isso. É tudo muito simples: se não falamos em LEGÍTIMA DEFESA, não há mais o que ser discutido. Ainda mais quando falamos em assassinato em massa. Afinal, o senso do VERDADEIRO DEVER NUNCA É OBSCURO. Se é obscuro, pode ser tudo, menos um verdadeiro senso de dever. O VERDADEIRO SENSO DE DEVER É CRISTALINO DENTRO DA RAZÃO DE CADA UM DE NÓS.

Brincando de ser Deus.


Assassinato em massa só me soa plausível se for executado por Deus. E se é executado por Deus, não é assassinato. Logo, o assassinato nunca é plausível à uma boa razão. Não me venha tentar falar em SENSO DE DEVER para justificar assassinato. Em massa, ainda. Seja pelo motivo que for. Seja inclusive esse motivo a paz mundial. Afinal, paz a que preço? Uma vida humana não vale mais que outra. Cada ser humano é um universo por si só.

Rorschach se indigna em aceitar essa tal paz, e o preço que ele paga, no fim da trama, é ser assassinado. Ou seja, mais um assassinato em nome da "paz". Essa frase até ofende uma pessoa de bem: "Um assassinato em nome da paz."

Rorschach sendo assassinado pelo
Dr. Manhattan.


Conclusão: Na minha opinião, o plano de Ozymandias é desumano, asqueroso, criminoso e deplorável. Kant concorda comigo.

Coincidência (ou não), Veidt termina tal qual o Ozymandias do soneto: o mundo foi de fato, obrigado a contemplar suas obras. E o mundo se desesperou. Mas depois, com Ozymandias sozinho e ferido em sua base na neve, nada mais restou em redor à toda sua decadência moral. Com suas mãos sujas de sangue e vísceras, ele se tornou nada mais que um destroço vazio, em meio à areias nevadas e planas espalhando-se ao longe. Qualquer semelhança com o soneto é mera coincidência.

Adrian. Nem melhor, nem pior que Hitler.
Apenas diferente.


Boa noite, e que todos vocês sejam livres cumprindo seus deveres e conseguindo assim, ter um pouco de paz.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Só sei que mulheres têm de ser femininas. - Espectrais x O papel da mulher na sociedade.

"Afinal, do quê adianta ser a mulher de Deus, se Deus não ama sua mulher? Ela apenas preferiu um humano que a visse como mulher, além de apenas enxergá-la como ser-humano."


Espectrais discutindo.
Como sempre.


Na liga de aventureiros mascarados de "Watchmen" existe uma mulher, e QUE mulher. Laurel Juspeczyk, para os íntimos, Laurie. O alter-ego de Laurie chama-se "Espectral".

Espectral tira o sapato para um relax. Afinal,
não é qualquer uma que combate o crime
de salto ato.


Na verdade, ela é a segunda Espectral, ou "Espectral II". O posto original de Espectral pertencia à sua mãe, Sally, que encarnava a mesma na década de 30, combatendo o crime com os "Minutemen", já citados no post anterior. Sally, a Espectral I, foi a primeira vigilante a lucrar com o super-heroísmo. Ela era um  verdadeiro "sex symbol" nos idos da Segunda Guerra Mundial. E além de enlouquecer a cabeça dos homens da época, ela utilizava de seu charme pra lucrar com isso.

Sally Jupiter nos anos 30.


Mesmo após o "Comediante" (esse figura ganhará um post logo mais) tê-la agredido e tentado estuprá-la, ela resolveu ter um caso com ele algum tempo depois disso. E de caso (meia dúzia de fodas), Sally acaba engravidando do Comediante, engravidando de Laurie.

Espectral I posa para os jornais após ter prendido
meia-dúzia de gatos pingados.


E Laurie só vem a descobrir que o Comediante é seu pai no final da trama, quando o mesmo já havia sido morto e enterrado. Desculpe, para quem não conhece a estória, esqueci de dizer "alerta de spoiler". Já era.

Comediante tenta estuprar Sally, e toma uma
bomba na cara de Justiça Encapuzada.


Bom, Sally se aposenta com a gravidez, e nasce Laurie.

"Feliz aposentadoria, Sally."


Sally atua drasticamente na criação de Laurie, incitando-a e educando-a especialmente para ser uma super-heroína, e assumir o seu antigo posto de "Espectral". E é justamente o que acontece, quando Laurie ainda era apenas uma adolescente. 

Malin Akerman, a Espectral
do filme. (Uau.)


Laurie, agora "Espectral", começa a atuar como uma super-heroína, e é quando ela acaba por se reunir com os "Watchmen", a liga de aventureiros mascarados posterior aos "Minutemen". E é nessa reunião que Laurie conhece seu futuro companheiro, o "Doutor Manhattan".

Laurie e Jon se beijam a primeira vez
na primeira reunião dos "Watchmen".
Ela era de menor.  Pedofilia.


Após a "Lei Keene" (também mencionei essa lei no post mais antigo), o Doutor Manhattan e Laurie se mudam para uma base militar, pois o Manhattan começa a trabalhar para o Governo Americano. Conforme o tempo vai passando, o Doutor Manhattan se torna menos humano, enxergando cada vez mais a vida humana com certo distanciamento. Para ele, a vida humana torna-se apenas um acontecimento físico-químico, um fenômeno do cosmos não mais importante que os outros.

Crackolândia. Vida dura.


Com essa visão de mundo, ele se torna cada vez mais frio e distante de Laurie, o que enfraquece o relacionamento, e acaba forçando a reaproximação dela com Daniel Dreiberg, o Coruja. E é com ele que ela se casa no final da trama. 
Chora não, bebê!


Bom, já que agora você conhece a história de Laurie, a Espectral, podemos analisá-la dentro do contexto de "Watchmen". Analisar o contexto da MULHER dentro de "Watchmen".  E é um contexto muito interessante, na minha opinião. Uma mulher é tecnicamente uma mulher quando tem sua primeira menstruação. Mulheres são os seres humanos "fêmeas", contrastando com os "machos". E se as chamamos de "mulheres" aos invés de "fêmeas" (afinal, são seres humanos racionais), não deve ser à toa.

"She´s a maaaaniac, oh no!"


A fêmea, na Natureza, é aquela que tem capacidade de produzir a gestação, e consequentemente, dar a luz às suas crias. Normalmente é ela quem cuida e cria seus filhotes, preparando-os para a vida adulta.

Laurie e Dan porrando a gangue no beco.
Cena antológica.


Na sociedade humana, o papel da mulher, durante milênios, foi basicamente esse também. Na Idade da Pedra, o homem saía para caçar com seus armamentos rudimentares, enquanto a mulher aguardava com os filhos nas cavernas. 

Me resgata desse incêndio.


Durante as Idades Clássicas, os homens eram mais militares e iam para as guerras, e as mulheres ficavam em suas respectivas cidades. 

Se esse bico fosse pra mim...


Na Idade Média, vemos surgir as primeiras Rainhas. No século XX, explode o movimento feminista, lutando pelos direitos da mulher. Eis que as mulheres ganham o direito ao voto em vários países, e como consequência disso, várias delas declaram sua independência como ser-humano, e começam a estudar e trabalhar em cargos que antes eram ocupados apenas por homens.

Pois é Coruja, vamo trabalhar.


Não vou me ater ao movimento feminista nessa postagem, tratarei disso futuramente aqui no blog de forma mais específica. Vou me ater à "Watchmen" e às duas Espectrais. 

Malin Akerman. Acho que te amo.

A primeira Espectral, Sally, era independente sim. Era tratada como um símbolo sexual, e acabou se acomodando nisso. Ser tratada como um objeto de carne e de luxo, para ela, era lucro. Isso satisfazia suas necessidades materiais, então era isso que importava. Vemos Sally engravidar, casar com outro homem que ela no fundo, não amava. Era apenas alguém para sustentá-la. Conforme ela envelhece na trama, vemos a figura de uma velha solitária, amargurada, triste, que vive amarrada ao passado, e acha que no fundo, apesar de suas realizações como super-heroína, teve uma vida vazia.

Sally nos tempos dourados.


A segunda Espectral, sua filha Laurie, já tem outra visão de mundo. Ela não aceita o fato de estar com um homem que não a enxerga como mulher. Ela não queria ser apenas enxergada como mulher, mas ser vista como mulher. Alguém para cuidar dela, alguém que não apenas que preencheria suas necessidades básicas. Alguém para amá-la de verdade, muito embora ela seja uma super-heroína, independente e bem sucedida por si só. Muitos acham seu personagem desnecessário à trama, mas isso é um absurdo. Seu personagem é dos mais importantes, pois ele traz à tona a temática do AMOR, em meio à temática de CAOS, DESESPERANÇA, VIOLÊNCIA e ÓDIO.

Tira a mão da frente, ô!


Ela é o ponto de equilíbrio dessa história inteira. E por ser uma mulher, e amar, e querer ser amada, ela simplesmente dá um pé na bunda de DEUS (Doutor Manhattan) para ficar com simples mortal, assim como ela (Dan Dreiberg, o Coruja). 

So kiss me.



Ela não quer uma rola gigante azul e enorme que tecnicamente nunca broxaria. 

Quadrinho auto-explicativo. 


Ela não quer "menage à trois" com um ser azul onipresente, anatomicamente perfeito com uma energia que nunca acaba. 

Três é demais. AAAA!
Que papelão, Jon!

Pois depois ela não vai querer nem trocar idéia.

Deixa quieto, Jon.
Psico.


Ela quer dar seu coração de forma sincera à uma pessoa sem super-poder algum.

Desenha pra ele, que ele não entendeu.
Pára de gagejar, Dan! Vira homem!


E ela deu (literalmente!) 

Agora sim!


Afinal, do quê adianta ser a mulher de Deus, se Deus não ama sua mulher? Ela apenas preferiu um humano que a visse como mulher, além de apenas enxergá-la como ser-humano.


Fofos até nos momentos de porrada.


E é essa atitude que as mulheres deveriam tomar em suas vidas, na minha humilde e sincera opinião masculina (mas não necessariamente machista). As mulheres devem ser sim super-heroínas, no sentido de serem fortes e independentes. Não devem mesmo depender de homem nenhum para sobreviverem.

Já dizia Nat Cole!
You really are.
       


Mas não confundir isso com o fato de não quererem se relacionar com homem nenhum. Pois homem e mulher, são opostos que se atraem, e se encaixam. Logo, devem somar um ao outro. Existindo cada um de forma independente, não dependente. E dessa independência, vem a soma voluntária. 

Último beijo de Laurie e Jon antes dele se mudar de
universo, ou talvez criar seu próprio universo.


Pois vocês mulheres trazem beleza à escuridão violenta do nosso dia-a-dia. São nosso contraste mais belo, e nosso ponto de equilíbrio mais importante. Não tirem isso de nós. Precisamos de vocês, tanto quanto vocês precisam de nós. E não precisa ser super-herói para viver uma história assim. Basta se dispor a amar. Basta se dispor a ser amado.

É com o Ozzymandias, relaxa.


Não seja um merda como o Ozzymandias.

Boa noite à todos!